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Roteiro - Continuação

Eu queria entender porque solidão combina tanto com cigarros. E eu não tenho nenhum. Solidão combina com café e cigarros, mesmo de manhã com o sol intenso de verão a cegar os olhos dos míopes.

Eu queria entender porque a solidão combina tanto com o som das teclas. Eu penso em você quando escrevo. Vou tomar um café, enquanto desenvolvo essa narrativa sem lógica do meu outro eu. O eu que sofre, que sangra, que chora e não dorme noites inteiras. Que tenta ver filmes e abrandar a dor da solidão e da fúria.

Vou tomar um café e fumar o cigarro imaginário, enquanto tento fugir do sol e da felicidade das pessoas. Eu, hoje, merecia um dia cinza. Um dia de tempestades para uma boa comida e para me embebedar também. Sem sol e sem culpa. Coisa chata essa que as pessoas fazem, inclusive eu, de se sentir obrigada a aproveitar um dia de sol. A ser feliz em um dia de sol. Não estou feliz e odeio o sol. Não quero ser saudável. Não quero aproveitar e nem bater palma quando mais um dia terminar e eu sentir que não saí do lugar. Fico aqui. Permaneço com todas as minhas dores existenciais, sem a certeza de que no final vai dar certo.

Como vai dar certo se a gente morre?



Escrito por Cássia Ferreira Andrade às 11h31
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A mentira sobre os contos de fada.

Hoje estava em uma festa de crianças. O tema era “Princesas”. Ao fundo da mesa de parabéns vários painéis com as histórias de princesas: Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida.  Todas elas, abraçadas e sorridentes com seus príncipes de rosto quadrado e cabelo sinuosamente cortado, olhos com nuances que vão do castanho ao azul, de acordo com a tonalidade das madeixas.

Fiquei  com muita raiva do que essas histórias fazem com a cabeça das mulheres. Ainda não sabia ler, quando me deparei com esses livros. Sempre os príncipes e sempre os malditos finais felizes.

Mesmo que hoje já tenha maturidade suficiente para entender que aquilo tudo é balela e fantasia (e fantasia por fantasia eu prefiro o Senhor dos Anéis) ainda sou um pouco vítima disso. Embora tente não ser uma pessoa “adequada” à sociedade, ainda desejo alguém para chamar de meu. Longe desse estereótipo de príncipe, até porque não faço jus ao visual de princesa de contos de fadas. Imagino que naquela época não havia cotas!

E olha que nem desejo um príncipe. Só gostaria de alguém que me entendesse e me aceitasse exatamente como sou. Sem ressalvas do tipo: “você seria ótima, se não fosse bipolar (e olha que nem sou bipolar!), ou “ você é ótima, mas não deve fazer carinho em público” ou “você é ótima e forte, e não acho adequado que você chore porque se sente fraca e impotente porque um acidente matou toda a sua família até a quarta geração”.

Eu queria alguém que me entendesse e aceitasse do jeito que eu sou: meio rude, meio grosseira, com uma carapaça grossa e cortante tentando me proteger desse mundo atormentado pelos contos de fada. Eu gostaria de alguém que gostasse de mim porque eu sou imperfeita, porque não tenho filhos, mestrado e um Peugeot. Que aceitasse as minhas imperfeições e entendesse que eu gosto dele, mesmo diante da sua imperfeição, do seu conservadorismo que me incomoda de modo que chega a doer.

Na verdade, menino bonito, eu gostaria que você gostasse de mim do jeito que eu sou: humana e imperfeita. Alegre e triste. Forte e fraca. Menina e mulher. Queria que você não brigasse porque eu choro e entendesse que eu só estou desesperadamente tentando fazer você me olhar e me achar boa e me querer assim, tola e passional, quase bipolar, do jeito que eu sou. Eu queria uma história bonita, em algum momento. E não mais uma decepção.

E olha que eu nem queria você. Nunca quis, porque eu sempre soube que para você, no seu ponto de vista, eu seria inadequada por razões que não cabem aqui descrever. Nunca quis você, para não me machucar por ser inadequada. Mas você me quis primeiro e me quis depois e eu aceitei você, mas você não me aceitou. E você me trocou por aquela menina que tem tudo que eu não tenho, embora eu nem queria ser como ela porque eu acho absolutamente maravilhoso ser do jeito que eu sou, porque é um jeito honesto e único e muito doloroso porque dói ser honesta e única nessa merda de mundo que exige adequação.

Agora eu estou chorando e você está cumprindo seus planos. Não é uma troca justa. Mas o que é justo nesse mundo? Eu estou aqui chorando, escrevendo e vendo o Jude Law na televisão, quando na verdade eu gostaria que você estivesse aqui comigo, não fazendo nada, não jurando romances, nem amores, nem fazendo planos, nem nada. Só estando aqui comigo, para eu entender cada parte do seu corpo e desejar cada imperfeição existente e que faz tudo ser real.

Eu queria você aqui, para eu ter o direito e fingir que eu acredito em contos de fadas e que as coisas podem ser boas e acontecerem de um modo não doloroso. De uma maneira tão boa que te faz sentir medo do momento seguinte. Eu queria você aqui, para viver minha história real, meu "não conto de fadas" com direito a cachorro roncando, roupa de cama furada, casa alheia, trilha sonora ruim, comida instantânea e bebida roubada.

Eu queria você aqui para construir uma história, a partir de um não lugar. De um não casal. Eu queria você aqui, para lembrar como é ser desejada e não acabar todas as noites sozinhas. Eu queria você aqui, para quem sabe você sorrir quando acordar ao meu lado, para eu não ter certeza que você odeia minha companhia e tudo que você faz comigo. Eu queria você aqui, para não entrar ano e sair ano eu estar sofrendo por amores não correspondidos e porque, por dois segundos eu acreditei que você fosse o moço escolhido para me fazer mais suave e mais serena. Mais doce, mais frágil e mais mulherzinha só para você trocar a resistência do chuveiro e eu admirar o seu sorriso.

Mas você não vem.

Embora eu insista tanto. Embora eu precise tanto. Embora eu quisesse gritar por isso.

Mas você não vem.

Não vem porque tem planos e eu não estou neles.

Você não vem porque eu sou supérflua e nós não somos um casal e você não deseja minha companhia, talvez só o sexo no final da noite. Mas nem sempre.

Eu queria você aqui porque adoro o improvável, só para zombar da vida e dos conservadores (no grupo que você se encaixa perfeitamente). Eu queria você aqui para rir da vida e de como ela é legal quando escolhe as coisas inesperadas. Eu queria você aqui para não ficar sozinha na verdade. Porque a noite está chuvosa e eu odeio noites assim.

E quem falou que o som se propaga no vácuo?

Eu grito a toa!

 

 

 



Escrito por Cássia Ferreira Andrade às 01h08
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